BROOKLYN 99

Brooklyn 99

A negação de um modo de preconceito é uma forma remodelada da sua manutenção enquanto tabu. E se algo não pode ser mencionado, como poderia ser resolvido? Às vezes parece que as pessoas estão exagerando, e falando tanto no assunto que chega a torná-lo banal. Entretanto, se ouvir sobre preconceito se transformou em algo desagradável ou tedioso, só se pode imaginar o quão insuportável deve ser vivê-lo.

Então, falar sobre um tópico importante e delicado, mas que faz inúmeras pessoas mudarem de assunto ou perderem o interesse, se tornou uma tarefa um tanto quanto difícil na atualidade. E é aí que entra Brooklyn 99, uma série de comédia, como tantas outras, e sobre detetives resolvendo casos (que também não é lá grande novidade).

Mas essas três coisas, individualmente consideradas como saturadas, se unem num resultado envolvente, que faz rir, quebra estereótipos e aborda temáticas com a seriedade e responsabilidade necessária, e, no entanto, sem perder a leveza e a originalidade.

Para ser sincera, o primeiro preconceito que a série trouxe à tona não foi nem abordado na tela. Eu vi um teaser da série, gostei da dinâmica e resolvi assistir para dar algumas risadas e descontrair. Objetivo atingido com sucesso, as piadas são boas, algo entre o bobo e o humor inteligente, por vezes ambos, mas não é só isso.

Com o desenrolar da trama, as boas atuações e os diálogos fluidos permitem o desenvolvimento do grupo de personagens, quebrando os estereótipos quando a escolha mais fácil seria carregá-los, e tudo acontece sem parecer mecânico. Sem parecer que a série se leva a sério demais e tenta desesperadamente ser sofisticada e relevante.

As personalidades se transmutam em camadas com o passar dos episódios, e mostram indivíduos que à primeira vista podem e muitas vezes são caracterizados com um único adjetivo. Mas que a natureza humana costuma ser não dual, e, portanto, difícil de conter na forma rígida de um retrato imutável.

Sargento Terry Jeffords

Um exemplo, dentre os tantos que eu poderia mostrar e sem spoilers, é o personagem do Terry Crews, o sgto Jeffords. É um homem negro, grande e forte, que gosta de malhar e a primeira vista pode parecer só isso. Então é apresentada uma complicação que o impede de trabalhar normalmente, para mais tarde ser explicada de uma forma completamente compreensível, e ainda assim surpreendente. 

Ele é um homem corajoso e afetuoso, tenta sempre ser um bom pai e dar o seu melhor em balancear a família e o trabalho. E apesar de corajoso, tem seus medos, suas incertezas. Apesar de amar sua família e amigos, às vezes precisa de um tempo para si e isso é perfeitamente normal.

Eu certamente poderia escrever mais sobre tanto esse quanto os outros personagens em Brooklyn 99, mas se você se interessou, bem, dê uma olhada nos episódios. Eu sei que é uma série famosa, e sendo honesta isso acaba me afastando um pouco (sim, um preconceito). E ainda assim fui cativada.


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Gaby Quinto

Ah, eu? Ainda aprendendo a ser quem sou e ser o melhor possível. É incrível como as palavras parecem poucas quando a gente tenta se descrever. Mas é isso... meio nerd, meio fotógrafa, metida a desenhista, e de vez em quando escrevo.

13 comentários

Sandra Silva · 30 de maio de 2020 às 20:40

Parabéns Gabi! Muito interessante

    Lane Quinto · 30 de maio de 2020 às 21:57

    A vontade que deu, foi de sair correndo pra assistir… e vou!

      Gaby Quinto · 1 de junho de 2020 às 04:13

      Finalmente! Hahaha
      Espero muito que tu goste!

        Naiara Barbosa · 6 de junho de 2020 às 16:59

        Que top 🥰 Vou assistir

    Gaby Quinto · 1 de junho de 2020 às 04:13

    Muito grata, Sandra! Fico feliz que tenha gostado!

Vanusa Sauter Oesterreich · 30 de maio de 2020 às 22:42

Texto maravilhoso, adorei! Irei assistir com certeza!!

    Gaby Quinto · 1 de junho de 2020 às 04:14

    Obrigaada, Vanu!
    Espero que goste 🙂

Fernanda Rodrigues · 12 de junho de 2020 às 21:51

Oi, Gaby!
É tão bom quando a gente é pego de surpresa e a surpresa é boa assim! 😀
Ainda não assisti a essa série, mas sempre ouço falar bem dela. Sua resenha me deixou com vontade de ver.
Um beijo :*

    Gaby Quinto · 3 de julho de 2020 às 17:31

    Oi, Fernanda!
    É muito bom mesmo quando a surpresa é boa! 🥰
    Acho que você vai gostar, eu confesso que agora que terminei tenho sentido saudades dos personagens.
    Beijo!

Thami Sgalbiero · 20 de junho de 2020 às 11:06

Vi o primeiro episódio dessa série no ano passado, mas achei meio esquisito o formato e de primeira não me ganhou muito, aí esse ano decidi assistir de novo o primeiro episódio e fui assistindo os outros. Acho que no 2º ou 3º episódio a série já tinha me ganhado, haha! Ainda to na primeira temporada e gosto de assistir todas as noites, porque é uma série levinha e que traz questões muito boas pra serem discutidas mas com a comédia. E sim, o medo do Terry lá no início dos episódios deixa a gente pensar “nossa, um cara fortão desse com medo de ir para alguma ação da polícia na rua, e ele é sargento” mas aí depois é super compreensível o “medo” dele e a gente entende. Outro personagem bom pra destacar é o Holt, que é capitão, negro e gay, inclusive em alguns episódios até retrata muito disso e a forma como eles tratam o assunto é bem gostoso de ver, porque eles usam a sátira mas não deixam de passar uma mensagem clara. Enfim, to gostando muito da série também.

    Gaby Quinto · 3 de julho de 2020 às 17:51

    Siiim, Thami!
    O desenvolvimento do Holt realmente é incrível, um ponto alto da série é a maneira com que retrataram as dificuldades que ele teve e tem sendo um homem negro e gay na polícia, o jeito como são apresentados os defeitos, as qualidades, o amor com que ele faz o trabalho dele, e muitos outros aspectos.
    Algo que me cativa na série é que os personagens são bem humanos, com bastante profundidade, e o mais interessante é que isso não se restringe aos principais, até os que não aparecem tanto tem suas próprias histórias, como o Kevin.
    Gosto demais da série e estou esperando pela próxima temporada!
    Um abraço!

Ana · 5 de agosto de 2020 às 11:35

Fico feliz em ver o quanto essa série tem sido apreciada, ela é incrível e acho lindo o jeito que eles tem pra falar de coisas tão difíceis, que fazem tanta gente sofrer. O gênero, a cor, a sexualidade, o cabelo… As pessoas não tem o direito de oprimir alguém por causa do jeito que é, que nasceu. Muito bom o jeito que o texto grata isso também, parabéns!

Manuela Mello · 8 de setembro de 2020 às 10:56

Ótimo artigo, muito bom visitar e ler seus conteúdos! Sempre com qualidade e excelente informações!!!

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